– Eu disse apenas que a chuvinha era boa. – Com essa frase e observando uma chuvinha que caia já há três dias, enquanto esperávamos o ônibus, ela me explicava não entender o questionamento do marido sobre o que ela queria dizer com esse comentário.
Sem a presença de mais ninguém ao nosso lado, ela falava como se pensasse em voz alta, sem olhar para mim, sem esperar que eu lhe desse uma resposta, olhando para o outro lado da rua. Um sorriso discreto apareceu em seus lábios indicando que não estava muito preocupada com o fato, chegando a achar um pouco de graça na história; mas o seu tom de voz era de cansaço.
Casados há muito tempo, ambos com seus quase setenta anos, ela se explicou, dizendo a ele que estava apenas repetindo um comentário que ela ouve, de muitas pessoas, desde pequenina, quando chove assim, chuva miúda, sem interrupção, sem trovões, sem pancadas, sem sustos.
Não imaginava que tal comentário pudesse ter qualquer outro sentido. Afinal de contas, somos mineiros, muitos vindos do interior, de pais ou tios fazendeiros que sempre se alegram com um tempo assim. É também o comentário típico de quem quer interromper um longo silêncio entre pessoas que já não muito mais o que falar. De uma época em que nada acontece, apenas o tempo muda.
Tentando amenizar um eventual desconforto dela com as possíveis suspeitas do marido, brinquei com ela dizendo que devia dar graças a Deus dele não ser um psicólogo, que querem saber qual o sentido até de termos espirrado.
Conheço o casal e já os vi dançando. Os dois são sérios, não afeitos a brincadeiras; ele, sempre um pouco mais sério e circunspecto, nunca esticou a conversa até mim, mesmo quando estivemos sentados na mesma mesa.
Mudamos de assunto. Deixamos o Tupinambá lá na sua casa, com sua solidão, com suas preocupações, seus queixumes e passamos a nos ocupar das nossas próprias mazelas, enquanto o ônibus não vinha.
Belo Horizonte – 09/11/2018
